Do BIM à indústria: como a transformação digital está mudando o trabalho dos engenheiros e reduzindo prazos

A transformação digital vem reposicionando engenheiros brasileiros como gestores de processos. Na construção civil e na indústria de mobilidade, ferramentas como o BIM e a plataforma 3D EXPERIENCE estão integrando dados, pessoas e etapas de projetos complexos, com potencial para reduzir retrabalho e encurtar prazos.

Na Marcopolo, fabricante brasileira de carrocerias de ônibus com sede em Caxias do Sul (RS), a adoção da plataforma 3D EXPERIENCE centralizou os dados dos produtos e permitiu reduzir em até um ano o tempo de lançamento de uma nova geração de veículos.

Com mais de 750 engenheiros distribuídos em 11 unidades fabris, a empresa administra uma estrutura complexa de desenvolvimento. Um ônibus de dois andares pode ter cerca de 5 mil componentes, enquanto o banco de dados da companhia reúne mais de 2 milhões de peças únicas. Segundo Tiago Mendes da Silva, coordenador de engenharia da Marcopolo, a empresa cria, em média, 600 novas peças por dia.

Antes da implementação da plataforma integrada, as equipes de design, engenharia e manufatura trabalhavam de forma separada, com arquivos e versões próprias. Incompatibilidades entre sistemas e componentes do veículo muitas vezes só eram identificadas durante a construção do protótipo físico, provocando atrasos e retrabalho.

Com o 3D EXPERIENCE, o modelo tridimensional do ônibus passou a concentrar o processo. As equipes passaram a acessar as mesmas informações, integradas à gestão de dados e compatíveis com sistemas de gestão empresarial, conhecidos como ERP. De acordo com Mendes da Silva, a centralização dos dados acelerou em um ano o lançamento dos ônibus.

A mudança também exigiu adaptação profissional. A Marcopolo estruturou um programa de gestão da mudança para preparar engenheiros acostumados a softwares e rotinas antigas. O coordenador afirmou que muitos profissionais utilizavam as mesmas ferramentas havia mais de 20 anos, o que tornou a transição um desafio.

Nesse cenário, o engenheiro deixa de atuar apenas como especialista em um componente e passa a exercer funções relacionadas à engenharia de processos. Entre suas atribuições estão acompanhar o ciclo completo do produto, assegurar a coerência do fluxo de dados entre design, análise, fabricação e fornecedores e antecipar conflitos entre áreas ainda no ambiente virtual.

Na construção civil, um estudo realizado por pesquisadores da Universidade de São Paulo, da Universidade Federal do Paraná e da Universidade de Strathclyde, no Reino Unido, analisou as dificuldades enfrentadas por uma grande construtora brasileira de infraestrutura para implantar o BIM de forma ampla.

A pesquisa durou seis meses e envolveu entrevistas, análise de documentos e observação em campo. Os resultados indicaram um cenário ambivalente. Na fase de projeto, foram identificados ganhos no gerenciamento das informações e na integração com a construção. O modelo tridimensional facilitou a detecção de interferências entre disciplinas, melhorou a comunicação entre projetistas e equipes de obra e aumentou a previsibilidade em trechos complexos.

Na etapa de construção, porém, a adoção encontrou limitações práticas. A extração de dados do modelo tridimensional era difícil e praticamente inviabilizou o uso do chamado 4D, recurso que associa o modelo ao cronograma para simular o avanço físico da obra. A equipe passou a tratar o problema como uma oportunidade para mapear falhas do modelo, estabelecer parâmetros mínimos de informação e automatizar a identificação de lacunas e inconsistências em projetos futuros.

A principal conclusão do estudo é que a tecnologia, sozinha, não garante a integração entre projeto e construção. Os pesquisadores defendem a revisão de contratos e a participação, desde o início, de todos os integrantes da cadeia — projetistas, gestores de obra, fornecedores e subcontratados — em um processo colaborativo único.

As barreiras envolvem não apenas software e hardware, mas também cultura organizacional, resistência à mudança, ausência de processos estruturados e contratos que ainda podem favorecer soluções individuais em vez do resultado integrado do empreendimento.

O BIM, sigla em inglês para modelagem da informação da construção, tornou-se uma referência em muitos projetos ao permitir que arquitetos, engenheiros e construtoras trabalhem sobre um mesmo modelo digital. A ferramenta reúne informações geométricas e técnicas da obra e pode apoiar diferentes etapas de seu ciclo de vida.

No Brasil, iniciativas de universidades e empresas pioneiras em infraestrutura vêm impulsionando a adoção desse modelo digital. O movimento também é influenciado por exigências regulatórias crescentes e por contratos públicos que começam a solicitar o uso da tecnologia em determinadas etapas.

Na prática, a transformação desloca o foco do engenheiro para a garantia da qualidade e da consistência dos dados compartilhados entre disciplinas, para a integração entre projeto e obra e para a coordenação de equipes multidisciplinares. A atuação deixa de se concentrar apenas na solução técnica isolada de uma estrutura ou sistema.

Nos dois casos — o BIM na construção e o 3D EXPERIENCE na indústria de mobilidade —, a função tradicional do engenheiro se aproxima cada vez mais da engenharia de processos. Esses profissionais passam a desenhar e revisar fluxos de trabalho digitais; definir quem acessa e atualiza dados em cada fase; conectar plataformas de modelagem tridimensional a sistemas de planejamento, orçamento, compras e produção; garantir a rastreabilidade e a consistência das informações; e mediar conflitos entre áreas com o modelo digital como base comum para decisões.

Nesse contexto, ganham espaço profissionais que combinam conhecimento técnico de engenharia com domínio de gestão de dados, processos e colaboração. Empresas capazes de alinhar tecnologia, contratos e cultura organizacional podem reduzir retrabalho, encurtar o tempo de desenvolvimento e ampliar a oferta de soluções personalizadas em mercados mais exigentes.

Métodos tradicionais e profissionais resistentes à mudança podem perder relevância diante da pressão por eficiência, transparência e conformidade regulatória. A tendência impulsiona fornecedores, construtoras e indústrias para uma cadeia mais conectada, na qual o engenheiro deixa de ser apenas responsável pelos cálculos e passa a atuar também como articulador dos processos que viabilizam os projetos.

Fonte: Miraí Broadcast