Hospital Geral de Palmas realiza primeiro procedimento com polilaminina no Tocantins e abre nova perspectiva para pacientes com lesão medular

A manhã desta quinta-feira, 2, entrou para a história da saúde pública do Tocantins. No Hospital Geral de Palmas (HGP), a jovem Sindy Mirela Santos Silva, de 21 anos, tornou-se a primeira paciente do estado a receber a aplicação da polilaminina, uma substância em estudo que vem sendo investigada por seu potencial na recuperação de lesões medulares.A trajetória até este momento começou no dia 11 de janeiro, quando Sindy sofreu um grave acidente de carro no trajeto entre Novo Alegre e Combinado, no sudeste do estado. A colisão provocou uma lesão na medula espinhal que resultou em paraplegia.O primeiro atendimento foi realizado no Hospital Regional de Porto Nacional (HRPN). Diante da complexidade do quadro, a paciente foi transferida para o HGP, onde passou a ser acompanhada por uma equipe multiprofissional e submetida a cirurgias, incluindo a estabilização da coluna.Desde então, foram semanas de cuidados intensivos, reabilitação e adaptação a uma nova realidade. Nesse processo, a possibilidade de acesso a um tratamento experimental começou a surgir.A polilaminina é uma substância produzida em laboratório a partir da laminina, uma proteína naturalmente presente no corpo humano. De forma simplificada, essa proteína tem papel importante no crescimento e na organização das células, especialmente na formação do sistema nervoso. A versão desenvolvida em laboratório busca reproduzir essa estrutura de forma estável, com o objetivo de auxiliar o organismo na reparação de danos, como os causados em lesões da medula.A pesquisa é conduzida pela cientista Tatiana Sampaio, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e ainda está em fase experimental. Resultados preliminares apontam potencial de auxílio na regeneração dos tecidos nervosos e na preservação de células afetadas pelo trauma.A possibilidade de participação no estudo surgiu com apoio e orientação da equipe do hospital, que identificou que Sindy se enquadrava nos critérios da pesquisa, por ainda estar na fase inicial da lesão.

Procedimento inédito no estadoO secretário de Estado da Saúde, Carlos Felinto, ressaltou o papel do Sistema Único de Saúde na viabilização de atendimentos complexos e inovadores. “Esse é um momento importante para a saúde pública do Tocantins. Estamos falando de um procedimento pioneiro no estado, realizado dentro de uma unidade do SUS, com toda a estrutura necessária e uma equipe altamente qualificada. Mais do que a tecnologia, o que garante esse tipo de avanço é o cuidado contínuo, integrado e acessível à população. Nosso compromisso é seguir fortalecendo essa rede para que mais tocantinenses tenham acesso a um atendimento de qualidade”, afirmou.A aplicação foi realizada no setor de hemodinâmica do HGP, com o auxílio de tecnologia de imagem para guiar com precisão o local da injeção.“Hoje, com muita alegria, estamos no setor de hemodinâmica do Hospital Geral de Palmas para realizar o primeiro procedimento de administração da polilaminina no Tocantins. Trata-se de uma paciente com traumatismo raquimedular, ainda na fase aguda, e que se enquadra nos critérios do estudo. A equipe está otimista com essa possibilidade e confiante de que o tratamento pode trazer benefícios. O procedimento é feito com auxílio de raio X, que permite direcionar a aplicação exatamente no local da lesão”, frisa o neurorradiologista intervencionista e neurocirurgião do HGP, Vinícius Bessa.Responsável pela aplicação, o neurocirurgião Luiz Felipe Lobo Ferreira explicou que o procedimento é minimamente invasivo. “A aplicação é feita com a paciente de lado, com sedação leve e sem necessidade de cortes. Utilizamos uma injeção diretamente na coluna, guiada por imagem, para alcançar exatamente a área da lesão na medula”, afirmou.O médico pesquisador Arthur Luiz Freitas Forte, integrante da equipe da pesquisadora Tatiana Sampaio, destacou que a polilaminina atua justamente na região afetada pelo trauma. “A polilaminina é derivada de uma proteína natural do corpo, a laminina, que tem papel importante no desenvolvimento do sistema nervoso. O que conseguimos foi transformar essa proteína em uma forma estável, que pode atuar na regeneração dos neurônios lesionados e também proteger as células que ainda estão viáveis. A expectativa não é falar em cura, mas em melhora da qualidade de vida, com possíveis ganhos de movimento, controle corporal e independência”, explicou. Arthur Luiz também ressaltou que o tratamento ainda é experimental e depende da iniciativa do próprio paciente. “Como é um medicamento em estudo, o acesso não é automático. O paciente precisa buscar a equipe responsável, estar ciente dos riscos e atender aos critérios definidos”, completou.

Esperança construída dia após diaA possibilidade de receber a medicação trouxe um novo fôlego à família. Há quase três meses em Palmas acompanhando a filha, a mãe de Sindy, Ledjane Bezerra da Silva, resume o sentimento vivido neste momento. “Estou aqui há quase três meses com a minha filha e muito feliz por ela receber essa medicação. A gente conseguiu contato com a equipe da doutora Tatiana e eu espero que esse tratamento chegue a mais pacientes. Que ninguém desista do sonho de voltar a andar. Eu só tenho gratidão a Deus por tudo que está acontecendo” A própria Sindy, moradora de Combinado, também compartilha o sentimento diante do procedimento realizado. “O meu sentimento hoje é de gratidão, primeiramente, a Deus. Ser a primeira do Tocantins eu acredito que vai abrir portas para outras pessoas também terem acesso à polilaminina. Para mim, foi como estar me afogando e passar um navio para me tirar de lá, porque a gente tem muita expectativa”, afirmou.Para além do procedimento, a história de Sindy também é marcada pelo trabalho contínuo da equipe de reabilitação. A fisioterapeuta Wellen Cristine acompanhou de perto toda a evolução da paciente desde a chegada ao hospital. “Quando a Sindy chegou, o quadro era grave. Ela tinha lesões no tórax, fraturas nas costelas e precisou, primeiro, de um cuidado intenso na parte respiratória. Só depois conseguimos avançar para a parte motora e preparar o corpo dela para a cirurgia. A reabilitação de pacientes com lesão na coluna é feita, muitas vezes, no leito, porque eles não podem sentar no início. É um processo longo, físico e emocional”, explicou.Segundo a profissional, a busca pela polilaminina também foi construída dentro da própria unidade. “A gente orientou a família sobre essa possibilidade e eles foram atrás. Foi um momento muito marcante quando conseguiram contato com a equipe da pesquisa. Existe muita expectativa, mas também consciência de que o tratamento é apenas uma etapa. A recuperação depende de um trabalho contínuo, principalmente com fisioterapia”, afirmou.Estrutura que faz a diferençaPara a fisioterapeuta, a realização do procedimento só foi possível graças à estrutura oferecida pelo hospital e ao trabalho integrado das equipes. “O que faz diferença aqui é justamente a equipe multiprofissional. A paciente é acompanhada por fisioterapeuta, psicólogo, enfermeiros, médicos de várias especialidades, nutricionista, fonoaudiólogo. Tudo o que ela precisou durante esses quase três meses foi atendido dentro do hospital. Ela passou por cirurgia, por acompanhamento clínico, por reabilitação. Isso foi fundamental para que ela chegasse apta a receber a polilaminina dentro do prazo necessário”, destacou.Wellen Cristine  também chama atenção para o desafio que começa após a alta. “Agora surge uma nova etapa. Ela é do interior e vai precisar continuar esse acompanhamento fora daqui. Não é simples, mas o que foi feito até aqui mostra o quanto esse suporte completo faz diferença na vida do paciente”, completou.

A história de Sindy ainda está em construção. O procedimento realizado nesta quinta-feira, 2, representa um passo importante, mas não encerra o processo. A partir de agora, começam novas etapas de acompanhamento e reabilitação.  Entre expectativas e incertezas, o que se consolida é a soma de esforços. De uma paciente que não desistiu, de uma família que buscou alternativas, de profissionais que enxergaram possibilidades e de um sistema público que, quando articulado, é capaz de abrir caminhos antes impensáveis.