Protesto global invade obra de data center da Microsoft e expõe disputa por água, energia e inteligência artificial

Mais de 100 ativistas ocuparam nesta sexta-feira (6) o canteiro de obras de um data center de inteligência artificial da Microsoft em Amsterdã, na Holanda. A ação abriu dois dias de protestos coordenados em 16 países contra a expansão acelerada desse tipo de infraestrutura e seus possíveis impactos ambientais.

Os manifestantes afirmam que o projeto, avaliado em mais de US$ 1 bilhão, pode pressionar o fornecimento de energia e água na região, disputar recursos escassos com outros setores e dificultar o cumprimento de metas climáticas.

A mobilização faz parte da campanha internacional Stop Dirty Data Centres, que reúne grupos ambientalistas e defensores dos direitos digitais. O movimento critica grandes complexos usados para operar sistemas de inteligência artificial e serviços de computação em nuvem, considerados pelos ativistas intensivos no uso de recursos e pouco transparentes.

Além das emissões associadas ao consumo de eletricidade, os grupos citam o uso de grandes volumes de água para resfriamento, a pressão sobre redes elétricas que já operam próximas do limite em alguns países e a competição por terrenos e infraestrutura com moradias e outras atividades econômicas.

Os ativistas também questionam a concentração de poder nas mãos das grandes empresas de tecnologia. Segundo os organizadores, esse processo pode provocar a perda de empregos em outros setores e criar riscos à segurança pessoal e nacional, caso dados e serviços essenciais passem a depender de um número reduzido de companhias privadas.

No local da obra, os manifestantes marcharam de braços dados até o portão e depois entraram no canteiro. Parte do grupo subiu em guindastes, pendurou balões coloridos e dançou entre as estruturas metálicas. A polícia permaneceu nas proximidades e não interveio imediatamente.

Alguns participantes carregavam cartazes com mensagens críticas às grandes empresas de tecnologia, incluindo a frase “Dane-se seu data center”. A ação foi apresentada como o início de uma série de protestos previstos até este sábado em diferentes cidades.

A Holanda atravessa um período de expansão desse setor. Cerca de 200 data centers estão planejados, em construção ou em operação no país, ampliando o debate entre os projetos de desenvolvimento tecnológico e as metas ambientais locais.

A campanha Stop Dirty Data Centres pede a suspensão temporária de grandes obras de data centers até que os governos estabeleçam regras claras sobre consumo de energia e água, emissões de carbono, uso do território e transparência.

Os grupos afirmam que não defendem o fechamento de instalações já em operação nem são contrários ao avanço da inteligência artificial. A principal reivindicação é a adoção de limites e contrapartidas, incluindo metas de eficiência, garantias contra riscos de apagões, proteção de aquíferos e sistemas de resfriamento menos dependentes de recursos naturais.

Outra demanda é a participação efetiva das comunidades afetadas nas decisões sobre onde e como os centros serão construídos, com realização de audiências públicas e divulgação de estudos de impacto acessíveis à população.

A Pure Data Centres, proprietária do terreno em Amsterdã e responsável pelo investimento superior a US$ 1 bilhão, informou estar aberta a conversar com moradores e ativistas. “Pedimos respeitosamente às pessoas que estão no local que saiam em segurança e dialoguem conosco sobre o projeto e quaisquer preocupações que possam ter”, declarou a empresa.

A Microsoft disse reconhecer que o projeto desperta “opiniões fortes” e afirmou respeitar o direito à manifestação pacífica, mas ressaltou que não aceita violações da lei dentro do canteiro. Segundo a companhia, data centers são uma infraestrutura crítica para empresas, governos e consumidores, além de serem necessários para atender à demanda por inteligência artificial e computação em nuvem.

Os protestos em Amsterdã ocorrem paralelamente a atos programados em cidades como Dublin, capital da Irlanda, e Varsóvia, na Polônia, além de locais que também recebem grandes projetos de computação em nuvem e inteligência artificial na Dinamarca, na Espanha, na Índia e nos Estados Unidos.

Na Europa, o tema se tornou um dilema político. Governos e instituições buscam reduzir a dependência tecnológica dos Estados Unidos e da Ásia, mas enfrentam pressão para manter padrões ambientais rigorosos. A chefe de tecnologia da União Europeia, Henna Virkkunen, resumiu o impasse ao defender o desenvolvimento da capacidade regional em inteligência artificial e, ao mesmo tempo, alertar para os impactos sobre a população.

“A IA, é claro, é uma tecnologia extremamente importante e precisamos ter nossa própria capacidade”, afirmou Virkkunen, citando investimentos em fábricas de chips, startups de inteligência artificial e grandes projetos industriais na região.

“É muito importante para os cidadãos poderem confiar que suas contas de energia não vão disparar e que não haverá apagões por causa dos data centers, nem que esses projetos estejam destruindo o meio ambiente”, acrescentou.

Casos recentes indicam o aumento da fiscalização sobre o setor. Um projeto do Google na Finlândia está sob investigação por desmatamento; Itália e Portugal endureceram regras ambientais; e a própria Microsoft abandonou um plano de data center no Reino Unido após impasses relacionados à infraestrutura.

Enquanto isso, investidores acompanham o avanço das regulações, especialmente nos Estados Unidos, onde a possibilidade de regras mais rígidas para a inteligência artificial tem pressionado as ações de grandes empresas de tecnologia. Com isso, a expansão física da IA, sustentada por concreto, aço, cabos e água, se torna cada vez mais um tema de debate público, além de continuar presente nos laboratórios e no mercado financeiro.

Fonte: Miraí Broadcast