Aos 61 anos, o britânico Mark Sutton relembra, em Interlagos, a transformação da fotografia na Fórmula 1: do uso de filmes revelados durante a noite ao envio instantâneo de imagens por satélite. Ao longo de 43 anos de carreira e 657 Grandes Prêmios registrados, ele acompanhou de perto a família Senna e algumas das principais mudanças do automobilismo.
Durante o Grande Prêmio de São Paulo, Sutton faz pausas entre uma sessão de fotos e outra para recordar sua trajetória. Atualmente, trabalha para a Getty Images e para a própria Fórmula 1, registrando pilotos, bastidores, celebridades nos boxes e torcedores nas arquibancadas.
“Tenho 61 anos, mas continuo com uma paixão enorme por esse esporte. Toda vez que chego a um circuito, ainda sinto aquela empolgação”, afirma.
A história de Sutton no automobilismo começou em Oulton Park, na Inglaterra, quando ele estudava fotografia em Manchester. Na ocasião, aceitou o convite do irmão, Keith, para cobrir uma corrida de Fórmula 3. Entre os competidores estava um jovem Ayrton Senna, que disputava espaço com Martin Brundle.
Com uma câmera analógica sem avanço automático, Sutton conseguiu fazer apenas duas fotos da disputa. Na primeira, os carros aparecem lado a lado; na segunda, o carro de Senna já está sobre o de Brundle. O impacto exato se perdeu enquanto ele avançava o filme, mas as imagens ganharam o mundo e ajudaram a iniciar sua carreira.
Mais de quatro décadas depois, Sutton é um dos profissionais veteranos da fotografia da Fórmula 1. Sua trajetória acompanha a transformação da categoria, que deixou de ser um espetáculo concentrado nas pistas e se tornou um produto global, impulsionado por séries de streaming, redes sociais e um público mais jovem e diverso.
Para atender à crescente demanda por imagens, o trabalho dos fotógrafos também passou por uma revolução tecnológica, com câmeras mais rápidas, conexões de internet mais potentes e softwares de edição avançados. A experiência de profissionais como Sutton tornou-se referência para agências de imagem, veículos de comunicação e organizadores de eventos que dependem de fotos entregues praticamente em tempo real.
No início da carreira, Sutton passava o dia ao redor do circuito e só descobria horas depois, no laboratório, se havia conseguido o registro ideal. Era necessário revelar o filme, selecionar os melhores negativos e iniciar o envio aos clientes.
Um dos momentos marcantes desse período ocorreu em 1993, quando ele fotografou Mika Häkkinen. O carro do finlandês aparece suspenso após passar por uma zebra. Sutton só percebeu a dimensão da imagem quando seu irmão colocou o negativo sobre a mesa de luz e chamou outros fotógrafos para observá-lo. A foto recebeu o apelido de “Flying Finn” e se tornou uma das favoritas de sua carreira.
A transição para a fotografia digital, no fim dos anos 1990, ocorreu com algumas limitações. A qualidade das primeiras câmeras ainda era inferior à do filme, e os fotógrafos precisavam carregar dois sistemas completos: as câmeras analógicas ofereciam maior resolução, enquanto as digitais atendiam à necessidade de rapidez de jornais e sites.
“Passei por tudo, desde fotografar em filme, revelar e digitalizar as imagens, até a chegada da internet”, resume Sutton.
Atualmente, as câmeras disparam dezenas de quadros por segundo e contam com sistemas de foco automático capazes de reconhecer e acompanhar carros em alta velocidade. Sutton utiliza uma Nikon Z9, equipamento que reduz o risco de perder o instante decisivo de uma freada ou ultrapassagem. Para ele, a diferença em relação ao período em que dependia de foco manual e avanço de filme é “monumental”.
O envio das imagens também mudou. Sutton acompanhou a passagem dos modems e das primeiras redes móveis para a comunicação via satélite. Hoje, em Interlagos e em outros autódromos, a Getty Images instala pontos de conexão Starlink em diferentes trechos da pista. Os fotógrafos conectam os equipamentos a essas estações e enviam os arquivos diretamente a editores espalhados pelo mundo.
A estrutura responde à saturação das redes móveis causada pelo grande número de torcedores que filmam, fazem transmissões ao vivo e publicam conteúdos no TikTok, no YouTube e em outras plataformas.
“Temos cem mil pessoas tentando compartilhar suas experiências. Elas estão filmando, publicando no YouTube, no TikTok. Não há nada de errado nisso, mas nós também precisamos enviar nossas fotografias”, explica Sutton.
Durante a corrida, parte das imagens produzidas por ele já começa a circular em sites, redes sociais oficiais da Fórmula 1 e plataformas de notícias. A fotografia da categoria deixou de ser um produto restrito ao fim de semana e passou a integrar o fluxo de conteúdo ao vivo, disputando atenção com vídeos feitos por torcedores nas arquibancadas.
A relação de Sutton com o Brasil está diretamente ligada à família Senna. Seu irmão, Keith Sutton, foi fotógrafo oficial de Ayrton Senna e ajudou a formar o arquivo de imagens que contribuiu para consolidar a imagem do tricampeão mundial. Mark acompanhou os primeiros passos do piloto na Europa, registrou testes com equipes de Fórmula 1 e construiu uma relação que atravessou gerações.
Durante a semana do Grande Prêmio de São Paulo, as lembranças de Ayrton voltaram ao tema com a palestra de Bruno Senna, sobrinho do ídolo, também piloto e presença frequente nas lentes de Sutton. O fotógrafo recorda a continuidade entre o trabalho dedicado ao tio e o acompanhamento do sobrinho, mantendo viva a memória do brasileiro dentro e fora das pistas.
Para Sutton, a ligação com a família Senna reforça uma função central da fotografia: registrar a história e alimentar a memória afetiva dos fãs. Em meio ao avanço tecnológico, ele considera que permanecem as imagens icônicas, capazes de sintetizar uma geração em um único quadro.
O foco do trabalho também se ampliou. Se no início as disputas na pista ocupavam quase toda sua atenção, hoje Sutton divide o tempo entre carros, pilotos, chefes de equipe, celebridades e torcedores. A Fórmula 1 se transformou em um grande evento de entretenimento, e essa mudança se refletiu nas pautas fotográficas.
Ele cita uma imagem feita recentemente no Grande Prêmio dos Estados Unidos, em Austin, que mostra Kim Kardashian ao lado de Lewis Hamilton. A fotografia se tornou uma das mais valiosas comercialmente naquele fim de semana. Retratos de fãs com fantasias, bandeiras e pinturas no rosto também ganharam espaço, assim como os registros de personalidades nos boxes.
Sutton relaciona parte dessa transformação à popularidade das séries da Netflix sobre os bastidores da Fórmula 1, que contribuíram para levar aos autódromos um público mais jovem e uma presença maior de mulheres. Na avaliação do fotógrafo, compreender esse novo público é tão importante quanto ajustar o ISO ou escolher o ponto exato da pista para fazer o registro.
Em Interlagos, Sutton também acompanha as discussões sobre inteligência artificial e robótica. Ele se diz impressionado com a velocidade das mudanças tecnológicas, recorda experiências recentes com carros autônomos e observa que ferramentas digitais avançadas já chegaram à fotografia. Ao mesmo tempo, diferencia a edição tradicional da fabricação de imagens.
Sutton menciona a política da Getty Images de não aceitar imagens geradas por inteligência artificial na cobertura editorial, embora permita ajustes convencionais, como correção de cor e nitidez. A preocupação, segundo ele, é preservar a confiança do público no conteúdo publicado.
“Está ficando difícil saber o que é real e o que não é”, alerta.
O fotógrafo reconhece que softwares de inteligência artificial já conseguem remover elementos indesejados ou criar composições mais limpas, mas sustenta que, no jornalismo, o valor está em registrar o que realmente aconteceu, e não em produzir cenas perfeitas no computador. Ele também admite que a automação continuará avançando e considera a possibilidade de câmeras robotizadas, controladas a distância ou parcialmente autônomas, dividirem espaço com profissionais humanos nos autódromos.
Entre os fotógrafos, tornou-se cada vez mais comum discutir até que ponto robôs e algoritmos poderão substituir o olhar treinado e a intuição de quem passou décadas à beira da pista. Sutton trata o tema com humor: “Vamos ter robôs trabalhando como fotógrafos?”. Em seguida, brinca que talvez seja o momento de pensar em aposentadoria.
Por enquanto, ele continua trabalhando no paddock de Interlagos, ajustando lentes, procurando ângulos improváveis e tentando condensar, em um único quadro, a velocidade, o barulho e a emoção que marcaram sua carreira e acompanharam a evolução da fotografia esportiva na Fórmula 1.
Fonte: Miraí Broadcast