IA entra no centro da resiliência empresarial e muda a forma de enfrentar ataques, falhas e crises

Uma nova série multimídia internacional mostra como CIOs e CISOs estão redesenhando a segurança e a continuidade dos negócios na era da inteligência artificial. As organizações usam algoritmos para acelerar a correção de falhas, enfrentar ataques cibernéticos, preparar a migração para a criptografia pós-quântica e administrar riscos relacionados a fornecedores.

O ponto de partida da série é a disputa entre criminosos digitais e equipes de segurança, ambos utilizando IA. Ferramentas automatizadas já ajudam invasores a identificar brechas com mais rapidez, enquanto executivos de tecnologia recorrem a recursos semelhantes para reforçar a proteção das empresas.

“Temos que nos mover tão rápido quanto a IA”, afirma Wally Dalrymple, CISO da Educational Testing Service e da PSI. Segundo ele, modelos de inteligência artificial vêm reduzindo o intervalo entre a descoberta de vulnerabilidades e a aplicação de patches, diminuindo o período de exposição antes que agentes maliciosos explorem as falhas.

A série detalha como grandes organizações conectam scanners inteligentes, automação de respostas e priorização baseada em risco para decidir, quase em tempo real, o que deve ser corrigido primeiro em ambientes complexos, que combinam sistemas legados, serviços em nuvem e aplicações de terceiros.

Os episódios também destacam a diferença entre recuperar sistemas e recuperar o negócio. Em setembro, a Boston Scientific comunicou que um ataque cibernético teria impacto material tanto no resultado do terceiro trimestre quanto no desempenho anual, mesmo após a aplicação dos reparos técnicos.

Na prática, o caso mostra que o restabelecimento dos sistemas não significa necessariamente que as operações voltaram ao normal. Mesmo com sites, bancos de dados e aplicações restaurados, podem persistir atrasos na produção, remanejamento de equipes, custos com consultorias, renegociações com clientes e perda de receitas futuras.

CIOs e CISOs entrevistados descrevem uma nova frente de trabalho: explicar à diretoria, de forma objetiva, quais operações serão retomadas primeiro, que áreas continuarão afetadas e como os impactos se refletem nos números apresentados a investidores e conselhos de administração.

A série acompanha um momento em que a IA passa a integrar diferentes áreas da infraestrutura de tecnologia, da gestão de redes ao atendimento ao cliente. Nesse processo, líderes de TI precisam equilibrar o avanço da automação e dos modelos generativos com políticas de defesa contra ameaças e mecanismos de governança de riscos.

O recorte inclui empresas dos setores de saúde, serviços financeiros, telecomunicações e tecnologia. Essas organizações lidam com dados sensíveis, cadeias extensas de fornecedores e forte pressão regulatória. O eixo central é a resiliência: a capacidade de prevenir, resistir, responder e se recuperar de incidentes sem comprometer a continuidade dos negócios.

Outro tema central é a preparação para a era da computação quântica, que pode quebrar protocolos de criptografia atualmente considerados seguros. Para executivos de empresas como Mimecast e Everpure, a comunicação com a alta liderança é tão importante quanto o planejamento técnico.

As discussões abordam como os CISOs podem demonstrar à direção que a organização está preparada para a criptografia pós-quântica. Entre as medidas estão o mapeamento de dados e sistemas críticos, os testes com algoritmos resistentes a ataques quânticos, o planejamento de migrações graduais e o alinhamento de expectativas com investidores e reguladores sobre prazos e custos.

Especialistas alertam que o desafio não se limita à troca de chaves e certificados. A mudança também precisa ser coordenada com parceiros, provedores de nuvem e desenvolvedores de softwares de terceiros, em um cenário no qual muitos fornecedores ainda não oferecem suporte maduro aos padrões pós-quânticos.

A série analisa ainda uma violação de dados em sistemas utilizados pelo FBI, apresentada como exemplo das fragilidades associadas à dependência de fornecedores para manter ambientes tecnológicos atualizados.

O caso é usado para discutir os desafios de aplicação de patches quando a segurança depende de terceiros. Mesmo que uma empresa identifique rapidamente um risco em uma plataforma contratada, ela pode não ter controle total sobre o código, os ciclos de atualização ou a infraestrutura, ficando dependente do fornecedor para corrigir a falha.

Em ambientes com várias camadas de serviços gerenciados, provedores de nuvem e softwares especializados, rastrear responsabilidades e exigir correções em prazos compatíveis com a velocidade de exploração das brechas se tornou uma tarefa diária de gestão de riscos contratuais.

Um dos podcasts da série aborda o desafio político por trás da resiliência. A conversa, intitulada “Como líderes de TI ganham apoio para estratégias de resiliência”, reúne Paul Twigg, CTO do Digital Commerce Bank, e Jeremy Koppen, CISO da Equifax.

Os executivos explicam como as funções de CIO e CISO evoluíram de responsáveis pela infraestrutura para posições de coordenação de riscos corporativos, com interlocução direta com diretores financeiros e conselhos. Segundo eles, a obtenção de orçamento e prioridade depende da tradução de ameaças técnicas em cenários claros de impacto sobre receita, reputação e continuidade de operações essenciais.

Os episódios também mostram que essa negociação interna exige a revisão dos indicadores de sucesso. Além de métricas tecnológicas, as empresas precisam considerar o tempo de retomada dos negócios, os impactos sobre clientes e a conformidade com normas de privacidade e proteção de dados.

O risco de terceiros ganha outro exemplo com a aquisição da Airtable pela italiana Bending Spoons. Após a operação, a nova controladora anunciou demissões significativas, atingindo “grande parte” da força de trabalho anterior, mesmo depois de prometer investimentos expressivos no produto e no suporte.

O movimento, comum em processos de fusão e aquisição, serve de alerta para CIOs que dependem fortemente de plataformas específicas. A questão é como proteger a operação quando o fornecedor muda de estratégia, reduz equipes de desenvolvimento ou altera o foco do produto.

Especialistas ouvidos pela série recomendam que clientes corporativos reforcem cláusulas de continuidade nos contratos, diversifiquem fornecedores críticos sempre que possível e mantenham planos de contingência para uma migração rápida caso determinada plataforma deixe de atender aos requisitos de segurança, disponibilidade ou suporte.

Na área de telecomunicações, a série apresenta bastidores da T-Mobile durante o furacão Isaias, que atingiu a Flórida em outubro, derrubando partes da rede elétrica e sites de telefonia celular. John Saw, CTO da operadora, detalha o uso de IA para prever riscos e automatizar ajustes nas redes durante desastres, com o objetivo de manter uma cobertura temporária e acelerar a restauração.

A companhia utiliza modelos para antecipar quais pontos da infraestrutura estão mais vulneráveis, deslocar equipamentos móveis e redirecionar automaticamente o tráfego durante períodos de alta demanda. A mesma lógica também é aplicada em picos de uso cotidianos, como grandes eventos e datas do comércio eletrônico.

Em paralelo, especialistas em redes discutem os limites da automação. A questão é se a IA poderá administrar sozinha grande parte do tráfego, com mínima intervenção humana, ou se continuará funcionando como uma camada de apoio aos engenheiros. Em qualquer cenário, cresce a necessidade de governança sobre decisões algorítmicas que podem derrubar ou reconfigurar, em segundos, serviços utilizados por milhões de pessoas.

O avanço da IA também amplia o uso de APIs, interfaces que conectam modelos inteligentes a aplicativos, sites e sistemas internos. Em outro episódio do podcast, o CISO Pieter VanIperen, da AlphaSense, analisa as novas preocupações de segurança relacionadas à exposição de dados e processos sensíveis a serviços externos de inteligência artificial.

Uma das estratégias discutidas é reduzir os privilégios das APIs de IA, limitando rigorosamente o que cada integração pode acessar e executar. A medida busca diminuir os danos em caso de vazamento de chaves, falhas de configuração ou uso indevido de credenciais. A recomendação é tratar essas APIs com o mesmo rigor aplicado a credenciais privilegiadas e integrações de pagamento.

Ao longo da série, análises de consultorias como a Gartner reforçam que os gastos com IA seguem em alta, embora muitas empresas ainda tenham dificuldade para comprovar o retorno dos investimentos em resultados de negócios. O alerta é que alguns projetos avançam sem os devidos “guard-rails”, ou seja, controles, políticas e responsabilidades claras para conter riscos.

A proposta é que CIOs criem um ciclo no qual os investimentos em IA e a gestão de riscos façam parte do mesmo sistema. Nesse modelo, cada novo uso da tecnologia deve ser acompanhado de mecanismos de proteção, monitoramento e resposta rápida a incidentes.

Executivos como Wally Dalrymple, Paul Twigg, Jeremy Koppen e John Saw convergem na avaliação de que a resiliência empresarial dependerá da combinação entre inovação acelerada e governança rigorosa, abrangendo desde a criptografia pós-quântica até os contratos com futuros fornecedores de serviços em nuvem.

Fonte: Miraí Broadcast