Eisenkot recebe prazo para formar governo e pode encerrar longa era Netanyahu em Israel

O presidente de Israel, Isaac Herzog, encarregou neste domingo (8) o líder da oposição, Gadi Eisenkot, de formar um novo governo após as eleições legislativas realizadas no fim de outubro deixarem o Parlamento sem uma maioria clara. A missão abre a possibilidade de uma mudança no comando do país e de uma eventual saída do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu.

Durante cerimônia na residência presidencial, em Jerusalém, Herzog confirmou que Eisenkot recebeu o primeiro mandato para montar uma coalizão. Após consultas com todas as legendas representadas no Knesset, partidos que somam 67 deputados recomendaram o ex-chefe militar para liderar o novo gabinete, enquanto 46 parlamentares apoiaram Netanyahu. Para governar, são necessários pelo menos 61 dos 120 assentos.

Em uma publicação nas redes sociais, Eisenkot afirmou que o país vive um momento decisivo e defendeu a formação de um governo de emergência nacional. “Farei de tudo para que estejamos à altura”, declarou o líder do partido Yashar, que ganhou projeção na política nacional após o início da guerra em Gaza.

O plano de Eisenkot prevê uma coalizão inédita, com o apoio já sinalizado de partidos árabes-israelenses e a abertura de negociações com legendas judaicas ultraortodoxas. Juntos, esses grupos podem garantir a maioria necessária, mas a proposta também expõe divergências dentro do bloco oposicionista.

Setores mais à direita da oposição rejeitam a dependência dos partidos árabes-israelenses, formados em grande parte por descendentes de palestinos que permaneceram no país após a criação de Israel. A resistência é especialmente forte entre aliados do ex-ministro Avigdor Liberman, conhecido por posições rigorosas em relação aos palestinos e aos árabes-israelenses.

Netanyahu também se opõe a qualquer composição que inclua partidos árabes-israelenses. Poucas horas antes do anúncio de Herzog, o primeiro-ministro criticou novamente a possibilidade de uma coalizão com essas legendas, que classificou como islamistas.

“Uma coalizão com os partidos árabes desmantelaria o Estado de Israel por dentro”, afirmou Netanyahu em discurso a apoiadores. Ele acusa a oposição de colocar a segurança nacional em risco para retirá-lo do poder e defende a formação de um governo de unidade, mas sem abrir mão de liderar a eventual coalizão.

O partido Yashar, de Eisenkot, convocou aliados de Netanyahu e integrantes do Likud, legenda do primeiro-ministro, a romper com o atual líder e aderir a um governo de unidade sob o comando do ex-chefe militar. A oposição já afirmou que a saída de Netanyahu é uma condição para qualquer acordo amplo.

As eleições do fim de outubro foram as primeiras realizadas desde o início da guerra em Gaza, desencadeada pelo ataque do Hamas em 8 de outubro de 2023. O pleito voltou a evidenciar a divisão do país em blocos de tamanho semelhante, incapazes de formar maiorias estáveis. Entre 2019 e 2022, o impasse político levou Israel a realizar cinco eleições.

Netanyahu ocupa o poder de forma intermitente há quase duas décadas e é o primeiro-ministro que permaneceu por mais tempo no cargo na história de Israel. Ele responde a processos por corrupção e é alvo de uma ordem de prisão emitida pelo Tribunal Penal Internacional por atos relacionados à ofensiva em Gaza, fatores que ampliam a pressão interna e externa por sua saída.

Herzog vinha defendendo a formação de um governo de unidade nacional, reunindo partidos judaicos de diferentes correntes ideológicas para enfrentar simultaneamente a guerra e a crise institucional. Como os líderes da oposição se recusam a participar de um governo chefiado por Netanyahu, o presidente decidiu conceder a Eisenkot a primeira oportunidade de buscar uma solução.

Um dos principais pontos das negociações é o serviço militar obrigatório, tema que ganhou importância com a mobilização de reservistas para Gaza e para a fronteira com o Líbano. A isenção concedida atualmente a grande parte dos judeus ultraortodoxos provoca insatisfação entre famílias seculares e religiosas que enviam seus filhos para o Exército.

Eisenkot propõe a criação de um serviço nacional para todos os israelenses, com a possibilidade de escolha entre funções militares e atividades civis. A medida busca atender às demandas dos partidos ultraortodoxos, mantendo algum tipo de contribuição obrigatória à sociedade. A proposta também pode aproximar grupos seculares que defendem maior equidade na divisão das responsabilidades nacionais.

Avigdor Liberman, defensor de um Estado laico e crítico dos privilégios concedidos aos ultraortodoxos, surpreendeu ao admitir que pode apoiar uma lei que mantenha a isenção do serviço militar obrigatório para estudantes de seminários religiosos. A declaração abriu espaço para negociações mais pragmáticas, embora contrarie promessas feitas pelo próprio político durante a campanha.

Com o mandato concedido por Herzog, Eisenkot terá 28 dias para formar uma maioria de 61 deputados e apresentar a composição do novo governo. Caso demonstre avanços, poderá receber uma prorrogação de 14 dias. Se não conseguir formar a coalizão, o presidente poderá transferir a missão para outro líder político.

Se nenhuma alternativa for viabilizada, Israel poderá voltar a realizar eleições, ampliando a instabilidade em meio à guerra e à crescente tensão social entre judeus seculares, religiosos e cidadãos árabes-israelenses. O resultado das negociações deverá influenciar o futuro político de Netanyahu, a política de segurança e as relações étnicas e religiosas no país nos próximos meses.

Fonte: Miraí Broadcast