Golpe com deepfakes teria desviado US$ 129 milhões de hospitais, bancos e empresas nos EUA

Promotores do Departamento de Justiça dos Estados Unidos acusam Jacob Soall, de 41 anos, Sharon Hazan, de 54, e Guy Sheetrit, de 42, de comandar um esquema global de fraude que teria desviado pelo menos US$ 129 milhões de hospitais, bancos e outras empresas. Segundo a acusação, o grupo usava imagens e vozes falsas de executivos e advogados, produzidas com inteligência artificial, para convencer funcionários a autorizar grandes transferências financeiras para negócios fictícios.

De acordo com os promotores, o golpe começava com um e-mail aparentemente enviado pelo presidente da empresa. A mensagem solicitava ajuda para uma operação sigilosa e de alto valor e, em alguns casos, anexava acordos de confidencialidade para reforçar a aparência de autenticidade.

Depois, os funcionários eram direcionados para ligações telefônicas ou videochamadas com um falso advogado, papel que seria desempenhado por Soall. Durante os contatos, ele detalhava o suposto negócio confidencial e orientava os destinatários sobre como e para onde o dinheiro deveria ser transferido. As autoridades afirmam que ferramentas de inteligência artificial foram usadas para imitar vozes e, em alguns casos, a aparência de executivos.

Os alvos trabalhavam principalmente em áreas de contabilidade e tesouraria, com autorização para aprovar grandes transferências. A acusação sustenta que milhares de empresas em diferentes países foram visadas. Os valores enviados para as contas indicadas pelos criminosos eram rapidamente convertidos em criptomoedas, o que dificultaria o rastreamento e a recuperação dos recursos.

Entre as vítimas mencionadas pelos promotores está uma rede de hospitais do Missouri, que teria perdido cerca de US$ 4,83 milhões em novembro de 2024. No mesmo período, um banco de Rhode Island teria sofrido prejuízo de aproximadamente US$ 2,68 milhões.

Uma rede hospitalar da Califórnia teria perdido US$ 2,97 milhões em dezembro de 2024. Em março de 2025, uma empresa britânica de tecnologia financeira teria enviado cerca de US$ 11,58 milhões ao esquema.

Também aparecem na lista uma empresa de fundos de investimento de Massachusetts, com prejuízo estimado em US$ 4,64 milhões em abril de 2025, e uma fabricante de ração da Flórida, que teria perdido aproximadamente US$ 5,24 milhões em junho do mesmo ano. Os nomes das companhias não foram divulgados.

Em pelo menos um caso, a fraude foi interrompida antes da conclusão. Um banco de investimento de Nova York bloqueou, em outubro de 2024, uma transferência de aproximadamente US$ 2,85 milhões autorizada por um funcionário. A área operacional identificou inconsistências, cancelou a operação e impediu o envio do dinheiro.

O caso evidencia uma vulnerabilidade crescente em grandes empresas: a combinação de comunicações internas por e-mail e telefone com tecnologias capazes de replicar com alta fidelidade a voz e a imagem de executivos. Em vez de tentar romper diretamente barreiras técnicas ou sistemas bancários, os criminosos explorariam o fator humano, especialmente funcionários autorizados a liberar grandes quantias.

Nesse tipo de fraude, a urgência, o sigilo atribuído a supostos negócios estratégicos e a presença ao vivo de executivos ou advogados falsos em videochamadas podem reduzir a eficácia de controles tradicionais, como a conferência de remetentes de e-mail e verificações básicas de identidade. Setores que movimentam grandes volumes financeiros, como saúde, bancos, empresas de tecnologia financeira e fundos de investimento, estão entre os principais alvos apontados no caso.

Além das perdas financeiras, as empresas enfrentam impactos sobre sua credibilidade, riscos legais e custos adicionais para reforçar a segurança. A conversão dos valores em criptomoedas acrescenta uma camada de opacidade às investigações e aumenta a pressão sobre reguladores e autoridades financeiras para desenvolver regras específicas e ferramentas mais avançadas de rastreamento de transações digitais.

As autoridades atribuem a Soall o papel central de se passar por advogado nas interações com as vítimas. Hazan e Sheetrit seriam responsáveis principalmente pela lavagem do dinheiro obtido com as fraudes. Segundo o Departamento de Justiça dos EUA, os três acusados respondem, cada um, a sete acusações, incluindo fraude eletrônica, roubo de identidade e lavagem de dinheiro.

Hazan é apontado pelos promotores como reincidente em crimes financeiros. A acusação afirma que ele foi condenado, em 2008, por conspiração para cometer fraude bancária no mesmo distrito judicial de Nova York. Esse antecedente é usado pelos promotores para solicitar uma atuação mais rigorosa da Justiça.

As prisões ocorreram na Europa, com apoio de autoridades locais. Jacob Soall foi detido na Espanha em 17 de junho; Sharon Hazan, também na Espanha, em 5 de agosto; e Guy Sheetrit, no Reino Unido, em 7 de setembro. Os Estados Unidos solicitaram a extradição dos três. Os processos ainda estão em andamento e, até uma decisão final, eles permanecem presos preventivamente por ordem das cortes europeias e são considerados inocentes em relação às novas acusações.

Para especialistas em segurança digital e compliance, o caso pode acelerar a revisão de protocolos internos em grandes empresas. Entre as medidas citadas estão o reforço da autenticação em ordens de pagamento, a exigência de múltiplas confirmações independentes para transações sigilosas e o uso de ferramentas capazes de identificar sinais de manipulação em áudios e vídeos.

O processo também pode estimular novos debates regulatórios sobre o uso da inteligência artificial em fraudes e sobre o papel das criptomoedas na lavagem de dinheiro em escala global.

Fonte: Miraí Broadcast