Baterias de sódio se aproximam do custo das LFP e podem transformar o armazenamento de energia

Baterias de íon de sódio começam a se aproximar do custo das baterias de fosfato de ferro-lítio (LFP) e ampliam a disputa pelo mercado global de armazenamento de energia e mobilidade elétrica. Acordos de fornecimento que já ultrapassam 70 GWh e os planos de expansão de empresas como BYD e CATL indicam que a tecnologia pode alcançar a paridade de custo com as LFP no nível de célula até 2026.

Uma análise da consultoria Wood Mackenzie aponta que os principais fabricantes devem atingir essa igualdade de preços entre baterias de íon de sódio e LFP no nível de célula até 2026. A paridade em módulos e sistemas — que também incluem eletrônica de controle, refrigeração e montagem — deve ocorrer somente depois de 2030.

Atualmente, o custo médio global das baterias de íon de sódio está em US$ 229 por kWh, enquanto o das LFP gira em torno de US$ 200 por kWh. Apesar da desvantagem no preço inicial, a Wood Mackenzie projeta que as baterias de sódio podem apresentar um custo total de propriedade 21% menor ao longo de 20 anos, em razão da menor necessidade de expansão de capacidade, da operação mais simples e dos gastos reduzidos com manutenção.

A aproximação de preços pode levar projetos de armazenamento estacionário com duração de duas a quatro horas — padrão em usinas solares e eólicas — a considerar o sódio como uma alternativa ao lítio. No setor automotivo, a adoção tende a começar por veículos elétricos de entrada e modelos destinados a climas frios, nos quais o desempenho do sódio pode ser mais competitivo.

A China lidera a corrida comercial. Segundo a Wood Mackenzie, a BYD planeja alcançar 30 GWh de capacidade de fabricação de baterias de íon de sódio, movimento que pode colocar a empresa entre as principais fornecedoras globais dessa tecnologia.

A CATL, maior fabricante mundial de baterias de íon de lítio, também começa a ampliar sua atuação no segmento de sódio. De acordo com a consultoria, a companhia pretende superar 1 GWh em remessas de baterias de íon de sódio até o fim de 2026. O volume deve funcionar como um teste de mercado para contratos maiores na década seguinte.

Os mais de 70 GWh em acordos de fornecimento já firmados envolvem projetos na China, nos Estados Unidos e na Europa, incluindo a Alemanha, além de programas-piloto na Índia. A Wood Mackenzie estima que, entre 2026 e 2035, a China registre uma taxa de aprendizado industrial de 18% a 20%, o que representa cortes rápidos de custo à medida que a produção ganhar escala.

Atualmente, a capacidade planejada de fabricação de células de sódio supera a demanda contratada. Ainda assim, o avanço dos acordos indica que o mercado começa a testar a tecnologia em escala crescente, especialmente em grandes sistemas de armazenamento e em linhas específicas de veículos elétricos.

O interesse pelas baterias de íon de sódio cresce em um momento de volatilidade nos preços do lítio e de pressão regulatória sobre matérias-primas críticas, como cobalto e níquel, presentes em diversas químicas de íon de lítio. Em comparação com as baterias de lítio, o sódio apresenta como vantagem o uso de insumos mais abundantes e geograficamente mais distribuídos.

Do ponto de vista técnico, a Wood Mackenzie destaca três vantagens principais das baterias de sódio: maior segurança no fornecimento de matérias-primas, vida útil prolongada e operação estável em uma faixa mais ampla de temperaturas. Esse último fator é relevante em regiões frias, onde baterias de lítio costumam exigir sistemas mais caros de gerenciamento térmico para preservar o desempenho e evitar degradação acelerada.

Por essas características, a tecnologia pode ser aplicada em sistemas estacionários instalados em regiões de inverno rigoroso e em frotas elétricas que operam sob baixas temperaturas. Projetos de ônibus, veículos comerciais leves e soluções de backup para data centers e indústrias de alto consumo de energia estão entre os alvos dos primeiros contratos.

A expansão das baterias de sódio não depende apenas de avanços de engenharia. Governos da China, dos Estados Unidos, da União Europeia e da Índia vêm utilizando políticas industriais e tarifárias para acelerar a diversificação tecnológica, com efeitos diretos sobre o custo de cada química.

Na China, a Wood Mackenzie informa que o país reintroduziu um imposto sobre o consumo de baterias de íon de lítio, mas isentou as baterias de íon de sódio até o fim de 2028. As baterias LFP passaram a pagar uma tarifa de 2% a partir de setembro de 2026, com aumento previsto para 4% em setembro de 2027. Na prática, a medida eleva o custo do lítio e cria um incentivo fiscal para que fabricantes direcionem parte dos investimentos ao sódio.

Nos Estados Unidos, a combinação de barreiras comerciais e subsídios atua na mesma direção. A consultoria destaca que tarifas de aproximadamente 58% sobre células de armazenamento de energia importadas da China estão estimulando a fabricação doméstica de baterias de íon de sódio. Esse movimento é reforçado pelos créditos de produção previstos na Seção 45X da Lei de Redução da Inflação, conhecida como IRA, e abre espaço para fábricas locais voltadas ao armazenamento de energia.

Na União Europeia, regras da regulamentação de baterias que exigem a declaração da pegada de carbono podem favorecer tecnologias menos dependentes de matérias-primas consideradas críticas. A Índia, por sua vez, aposta em um pacote de estímulos que inclui US$ 1,25 bilhão em incentivos diretos à fabricação doméstica de baterias, além de isenções tarifárias para determinados equipamentos de produção.

Nesse cenário, fabricantes posicionados nos segmentos de veículos elétricos com baterias de sódio, sistemas estacionários e exportação dessa tecnologia podem obter vantagens em futuras licitações públicas e contratos privados que priorizem menor risco de suprimento e menor impacto de carbono.

O preço médio global calculado pela Wood Mackenzie para as baterias de íon de sódio é de US$ 229 por kWh, acima da média de aproximadamente US$ 200 por kWh das LFP. A diferença, contudo, tende a diminuir com o avanço da produção em escala na China, nos Estados Unidos, na Europa e na Índia.

O valor atual reflete o estágio inicial de industrialização da tecnologia, marcado por linhas de montagem menores, uma cadeia de suprimentos menos madura e custos de capital mais altos. A taxa de aprendizado de 18% a 20% estimada para a China entre 2026 e 2035 indica, porém, que os custos podem cair rapidamente a cada duplicação do volume produzido, reduzindo a distância em relação às LFP ainda no fim desta década.

Quando considerado o ciclo completo de um projeto de 20 anos, a Wood Mackenzie projeta que as baterias de íon de sódio podem alcançar um custo total de propriedade 21% menor. Assim, mesmo partindo de um preço por kWh mais elevado, o sódio tende a custar menos ao longo da vida útil do sistema.

As baterias de íon de sódio ainda não atingiram a paridade de custo com as LFP. A projeção da Wood Mackenzie é que os principais fabricantes alcancem essa igualdade no nível de célula até 2026, enquanto a paridade em módulos e sistemas deve ocorrer somente depois de 2030.

No momento, as LFP continuam sendo uma opção mais econômica e madura para a maioria dos projetos de armazenamento com duração de duas a quatro horas e para grande parte dos veículos elétricos. Com a aproximação de custos e a possível vantagem no custo total de propriedade ao longo de 20 anos, o sódio começa a se viabilizar primeiro em nichos como grandes usinas de armazenamento estacionário, aplicações em climas frios e veículos elétricos de menor autonomia ou voltados ao uso urbano.

Segundo a Wood Mackenzie, o período entre 2030 e 2035 será decisivo para que as baterias de íon de sódio alcancem competitividade econômica. Até lá, políticas públicas, curvas de aprendizado e decisões de investimento de empresas como BYD e CATL devem definir a velocidade com que a tecnologia deixará o estágio de nicho para disputar espaço com as baterias de íon de lítio.

Fonte: Miraí Broadcast