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Eleitores dos EUA rejeitam 40 de 41 restrições a data centers de IA, mas pressão local aumenta
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Eleitores dos EUA rejeitam 40 de 41 restrições a data centers de IA, mas pressão local aumenta

Eleitores dos EUA rejeitam 40 de 41 restrições a data centers de IA, mas pressão local aumenta

Moradores de dez estados dos Estados Unidos rejeitaram 40 das 41 medidas locais que propunham moratórias ou proibições para novos data centers de inteligência artificial nas eleições desta semana. O resultado ocorreu apesar de ofertas de participação acionária feitas por empresas como Anthropic, OpenAI e SpaceX, e refletiu a relevância de preocupações imediatas com consumo de água, energia e tarifas.

Nas semanas que antecederam a votação, as três empresas tentaram associar os eleitores aos possíveis ganhos financeiros do setor. A Anthropic reservou 5% de suas ações para um fundo social; a OpenAI ofereceu 5% ao governo dos Estados Unidos; e a SpaceX, de Elon Musk, prometeu distribuir ações a crianças de todo o país. As propostas, contudo, enfrentaram preocupações locais relacionadas ao aumento das contas de luz, à pressão sobre mananciais e ao risco de racionamento.

Para as comunidades, o impacto mais imediato da expansão da inteligência artificial é a construção dos data centers — grandes instalações frequentemente descritas como prédios “sem janelas” próximos a rodovias. Esses empreendimentos utilizam a mesma rede elétrica dos bairros e podem consumir água dos mesmos aquíferos. A percepção recorrente entre autoridades locais é que os moradores veem primeiro a infraestrutura e possíveis aumentos tarifários, enquanto os benefícios econômicos permanecem incertos.

Segundo pesquisas de boca de urna, 56% dos eleitores disseram que os temas relacionados a data centers e inteligência artificial influenciaram sua escolha para o Congresso. Ainda assim, a maioria rejeitou medidas que limitavam ou proibiam novos centros de dados, dificultando a adoção de restrições preventivas à expansão da infraestrutura de IA.

Texas e Geórgia, dois dos estados onde a construção de data centers avança mais rapidamente, elegeram governadores que prometeram suspender novas licenças para esses empreendimentos. A posição foi acompanhada por produtores rurais e moradores preocupados com a segurança hídrica. No Texas, o comissário de Agricultura ganhou apoio ao levar à campanha relatos de fazendeiros do interior sobre o possível impacto dos centros de dados no nível dos poços.

No Alasca, o debate assumiu uma perspectiva diferente. Parte da receita do petróleo é distribuída diretamente à população, o que torna mais concreta a ideia de compartilhar a riqueza gerada por recursos naturais. Nesse contexto, as ações de empresas de IA contrastam com os custos imediatos de energia e água: os benefícios financeiros dependem de regras de idade, decisões políticas futuras e oscilações do mercado.

Analistas avaliam que a inteligência artificial apresenta uma dinâmica diferente da observada em outras tecnologias. Na visão desses especialistas, a tecnologia precisa conquistar apoio popular antes de gerar retorno amplo. Diferentemente da eletricidade, cuja infraestrutura era acompanhada pelo acesso direto ao serviço, a IA pode impor primeiro os custos de sua operação às comunidades, enquanto os benefícios dependem da expansão e da rentabilidade dos serviços.

Enquanto as 40 medidas de restrição eram rejeitadas nas urnas, as promessas de distribuição de ações permaneciam, em grande parte, sem implementação. A presidente da SpaceX anunciou que pretende entregar, em dezembro, pouco mais de 2 milhões de ações da empresa a adolescentes de 11 a 17 anos que vivem em regiões de baixa renda. O plano de Elon Musk de garantir uma ação para cada criança dos Estados Unidos foi adiado para 2027.

No caso da Anthropic, os 5% destinados a um fundo social ainda dependem da aprovação dos acionistas e da definição sobre a gestão desse patrimônio. Pessoas próximas às negociações afirmam que a empresa tenta estabelecer quem administrará a participação pública antes que o Congresso dos Estados Unidos tome uma decisão. A OpenAI condicionou sua oferta de 5% ao governo americano à aprovação da Casa Branca e do Congresso, o que pode adiar qualquer benefício direto para o médio ou longo prazo.

Para os eleitores, a diferença entre custos e benefícios é prática: as contas de energia vencem todos os meses, enquanto o eventual retorno das ações pode ficar bloqueado até a maioridade dos filhos ou depender de decisões tomadas em Washington. Especialistas favoráveis à expansão da inteligência artificial também consideram racional a resistência local, argumentando que riscos como seca, tarifas mais altas, ruído e obras têm impacto imediato, enquanto os ganhos financeiros são futuros e incertos.

A dificuldade para obter licenças e a reação nas urnas também afetaram o mercado financeiro. Na última quinta-feira, o índice Nasdaq 100 perdeu US$ 2,3 trilhões em valor de mercado. O movimento foi atribuído, em parte, à perspectiva de regras mais rígidas e de negociações mais complexas para a construção de novos data centers. Investidores passaram a revisar as projeções de crescimento das empresas de IA, que dependem de uma infraestrutura robusta para treinar e operar modelos avançados.

A Anthropic, que se preparava para uma abertura de capital avaliada em US$ 1,5 trilhão, passou a enfrentar questionamentos sobre o preço e o calendário da oferta. A queda das ações também afeta os planos de compensação à população, já que o aumento da resistência às obras e do risco regulatório pode reduzir o valor das participações prometidas.

Em Washington, a pressão política também aumentou. O senador Bernie Sanders propôs transferir metade das ações das maiores empresas de IA para um fundo público, com participação em conselhos de administração e pagamento anual de dividendos por cidadão. A proposta faz parte do debate sobre como garantir que a sociedade participe do valor gerado pela tecnologia, sem concentrar os ganhos em executivos e grandes investidores.

Após a rejeição de medidas locais, a OpenAI anunciou, na quinta-feira, um pacto para seus futuros data centers. A empresa afirmou que pagará integralmente os custos de energia e da infraestrutura necessária, divulgará dados sobre consumo de água e emissão de ruído e limitará acordos de sigilo com autoridades locais.

O plano também prevê metas para reduzir o consumo de água e ampliar a transparência sobre os impactos dos centros de dados. A empresa, no entanto, reconhece limitações físicas: parte da água utilizada na refrigeração dos servidores evapora e deixa de estar disponível para comunidades vizinhas, especialmente durante períodos de seca. Além disso, a geração da eletricidade usada pelas instalações pode consumir água em usinas térmicas ou nucleares.

Especialistas observam que aumentos de tarifas podem, em tese, ser compensados por transferências financeiras, mas o mesmo não ocorre necessariamente com o racionamento. A lembrança de torneiras secas, poços em queda e pastagens sem irrigação influencia a percepção dos moradores mais do que projeções de dividendos futuros.

As medidas submetidas aos eleitores variavam de moratórias temporárias a proibições de até dez anos para novos data centers. Muitas só poderiam ser revertidas por meio de outro plebiscito. Na prática, funcionavam como instrumentos de negociação entre municípios e empresas de tecnologia em um cenário no qual a infraestrutura de IA passou a ser comparada, em importância estratégica, a linhas de transmissão e gasodutos.

As empresas reagiram às propostas com ofertas de participação acionária, em uma tentativa de antecipar discussões sobre uma possível socialização compulsória do capital. Ao oferecer 5% ao governo, a OpenAI sinaliza preferência por negociar uma participação limitada em vez de enfrentar propostas que defendem a transferência de metade do controle para fundos públicos. A estrutura do fundo proposto pela Anthropic também busca deixar a gestão da participação sob responsabilidade de entidades próximas ao setor, e não exclusivamente do Congresso.

O impasse entre comunidades locais, empresas de inteligência artificial e o governo federal deve se intensificar nos próximos meses, com negociações sobre licenças, padrões ambientais e compensações. A expansão dos data centers, considerada essencial para o desenvolvimento da IA, dependerá cada vez mais da capacidade das empresas de responder a preocupações concretas sobre água, energia e qualidade de vida.

Fonte: Miraí Broadcast

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