A balança comercial do Brasil fechou outubro com superávit de US$ 9,318 bilhões, o maior resultado para o mês desde o início da série histórica. O saldo cresceu 39,4% em relação a outubro do ano passado, impulsionado principalmente pelo aumento das exportações de petróleo, combustíveis, soja, cereais e carne bovina. Com o resultado, o superávit acumulado entre janeiro e outubro chegou a US$ 71,04 bilhões, alta de 34,1% no ano.
De acordo com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), as exportações somaram US$ 37,807 bilhões em outubro, avanço de 20% na comparação anual. As importações totalizaram US$ 28,490 bilhões, crescimento de 14,8%. A corrente de comércio, que reúne exportações e importações, atingiu US$ 66,297 bilhões, também um recorde para meses de outubro, com alta de 17,7%.
O desempenho foi liderado pela indústria extrativa, especialmente pelo petróleo. Segundo Herlon Brandão, diretor de Estatísticas e Estudos de Comércio Exterior do MDIC, as exportações de petróleo bruto passaram de US$ 195 milhões em outubro do ano passado para US$ 1,3 bilhão neste ano. As vendas externas de óleos brutos de petróleo cresceram 122,6%, enquanto as de óleos combustíveis avançaram 164,5% no mês.
Na agropecuária, soja em grão, farelo de soja e cereais responderam por parte significativa do crescimento. As exportações de soja em grão aumentaram 8,9% em outubro, e as de farelos de soja e alimentos para animais subiram 39,1%. Cereais como centeio e aveia também registraram expansão expressiva, assim como a celulose.
O avanço da indústria extrativa reflete a combinação entre maior produção e preços internacionais mais elevados do petróleo, em um cenário marcado pelo agravamento da guerra no Oriente Médio. A demanda global por combustíveis permaneceu firme, favorecendo o aumento das vendas brasileiras. O agronegócio também continua entre os principais motores do comércio exterior, com grãos e carnes garantindo fluxo constante de receitas em dólar.
No acumulado de janeiro a outubro, as exportações brasileiras somaram US$ 321,884 bilhões, alta de 11,2% em relação ao mesmo período do ano passado. As importações chegaram a US$ 250,844 bilhões, crescimento de 6,1%. A corrente de comércio no ano atingiu US$ 572,728 bilhões, avanço de 8,9%.
As vendas para os Estados Unidos foram um dos destaques de outubro. As exportações para o mercado americano cresceram 87%, alcançando US$ 4,32 bilhões, impulsionadas principalmente por petróleo e carne bovina. De acordo com Brandão, mais da metade do aumento das vendas para os Estados Unidos veio do petróleo.
O movimento ocorreu mesmo sob o impacto de tarifas adicionais impostas pelos Estados Unidos. Após rodadas de negociação, produtos como carne e suco de laranja foram retirados do pacote de sobretaxas, o que ajudou a preservar parte do fluxo comercial. Ainda assim, o governo brasileiro avalia que não é possível afirmar que todos os efeitos das medidas já foram superados.
A União Europeia também ampliou as compras de produtos brasileiros. As exportações para o bloco cresceram 32% em outubro, somando US$ 6,04 bilhões, com destaque para alimentos. Para Allan Gallo, professor de Direito Internacional e Economia da Universidade Presbiteriana Mackenzie, o acordo entre Mercosul e União Europeia tem papel central nesse movimento. Segundo ele, as exportações brasileiras para a Europa vêm crescendo significativamente em função do acordo.
Na direção oposta, as exportações para a China recuaram 5,3% em outubro, em grande parte devido ao fim da cota para carnes. Ao mesmo tempo, as importações brasileiras de produtos chineses subiram 17,1%, chegando a US$ 7,53 bilhões no mês.
Em 2026, 13 dos 14 principais compradores do Brasil aumentaram as importações de produtos brasileiros. Houve avanço nas vendas para países como Índia, Holanda, Itália e Turquia, movimento que reduz a dependência de poucos mercados. A única exceção foi a Argentina, que diminuiu as compras em 17%, reflexo do aperto econômico interno.
Para Miriam Vale, professora de Negócios Internacionais da Fecap, a perda de poder de compra da população argentina pode dificultar a colocação de produtos brasileiros naquele mercado, já que o país vizinho é um dos principais parceiros econômicos do Brasil.
Para o setor exportador, a diversificação de destinos abre novas oportunidades. Deise Cristina Bissoni, diretora de Finanças, Mercado e Marketing do Grupo Botuverá, especializado em exportação de soja, afirmou que a China continua sendo o mercado de maior impacto, mas outros países também vêm ampliando a demanda por produtos brasileiros, como grãos e carnes.
Especialistas ponderam, porém, que a pauta exportadora brasileira continua concentrada em produtos básicos. Allan Gallo destacou que, embora o país esteja vendendo mais e para um número maior de mercados, ainda exporta essencialmente os mesmos produtos. Para ele, o desafio é ampliar a participação de itens com maior valor agregado, e não apenas aumentar as vendas de commodities cuja demanda cresce em razão de fatores externos, como o petróleo em períodos de conflito e alta de preços.
As importações cresceram 14,8% em outubro, puxadas pelos combustíveis, cujos desembarques aumentaram 84,2% em valor na comparação com o mesmo mês do ano passado. A alta reflete tanto o encarecimento internacional do petróleo e de seus derivados quanto a necessidade de abastecimento do mercado interno.
Por outro lado, a entrada de bens de capital, como máquinas e equipamentos utilizados em investimentos, perdeu força. A elevação dos juros no Brasil e no exterior encarece o crédito e pressiona as decisões de investimento das empresas, resultando em um ritmo mais fraco de importação desses itens. Esse cenário pode limitar ganhos futuros de produtividade e competitividade da indústria nacional.
Apesar do desempenho positivo até outubro, o MDIC revisou para baixo a projeção de superávit comercial para o ano. A estimativa de saldo positivo caiu de US$ 90 bilhões para US$ 84,4 bilhões. Se confirmada, ainda será a segunda melhor marca anual da série histórica, atrás apenas do resultado registrado recentemente.
A previsão para as exportações totais em 2026 foi reduzida para US$ 382,5 bilhões, enquanto a estimativa para as importações recuou para US$ 298,1 bilhões. Mesmo com o ajuste, a avaliação da equipe econômica é que o comércio exterior continuará contribuindo para as contas externas, ajudando a conter a volatilidade cambial e sustentando a confiança dos investidores.
Para os próximos meses, o desafio será manter o ritmo das exportações diante das incertezas da economia global e administrar o impacto de combustíveis mais caros sobre as importações e os custos da produção interna, sem perder competitividade nem espaço nos mercados conquistados em 2026.
Fonte: Mirai Broadcast
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