Líderes religiosos, especialistas em tecnologia, pesquisadores e investidores se reuniram em Roma, entre 5 e 6 de novembro, durante o Fórum Builders AI, para discutir a criação de uma inteligência artificial alinhada à fé católica, à dignidade humana e à proteção de crianças e adolescentes.
Realizado na Pontifícia Universidade Gregoriana, o encontro teve como objetivo estabelecer uma rede permanente entre a Igreja e o setor tecnológico. A proposta é desenvolver ferramentas de inteligência artificial orientadas, desde a concepção, por critérios éticos claros e voltadas a áreas como evangelização, educação e cuidados com a saúde mental e física.
Na abertura do fórum, o cardeal Michael Czerny afirmou que o desenvolvimento tecnológico deve ocorrer por meio de um processo compartilhado. Segundo ele, embora a inteligência artificial já afete praticamente toda a sociedade, o diálogo entre diferentes setores ainda é limitado.
Os organizadores defendem que os novos sistemas reflitam uma visão cristã da pessoa humana, em vez de atender exclusivamente a interesses comerciais. A iniciativa também está relacionada a documentos recentes do Vaticano sobre tecnologia e dignidade humana.
Durante o evento, participantes alertaram que modelos generalistas de inteligência artificial, treinados com grandes volumes de dados disponíveis na internet, podem reproduzir vieses e conteúdos incompatíveis com a doutrina católica. Também foram apontados riscos relacionados à coleta e ao uso de dados de menores.
A segurança infantil foi tratada como uma das principais prioridades do fórum. Entre os relatos apresentados esteve o de Megan Garcia, mãe que perdeu o filho após ele desenvolver um apego extremo a um robô de conversação. O caso foi citado como exemplo dos possíveis danos emocionais associados a sistemas projetados para manter a atenção dos usuários e estimular vínculos de dependência.
A partir desse e de outros depoimentos, participantes defenderam que empresas sejam responsabilizadas por danos causados a menores. Entre as medidas propostas estão a realização de testes independentes de segurança antes do lançamento de tecnologias destinadas a crianças ou acessíveis a elas, além da proibição da venda ou retenção de dados de menores.
Também foi sugerida a criação de auditorias externas para avaliar algoritmos, políticas de privacidade e termos de uso. Especialistas em direito digital afirmaram que, caso essas regras sejam adotadas de forma ampla, elas poderão aumentar os custos de conformidade para aplicativos familiares e plataformas educacionais, mas também reduzir práticas consideradas abusivas na coleta e na monetização de dados infantis.
No campo técnico, bispos, educadores e desenvolvedores defenderam a criação de modelos de linguagem próprios, treinados inicialmente com fontes oficiais da Igreja. Um dos exemplos citados foi o Magisterium AI, sistema baseado em documentos do magistério, escritos de santos e textos teológicos reconhecidos, em vez de bases genéricas da internet.
A expectativa é que ferramentas desse tipo possam responder a dúvidas sobre fé, moral e história da Igreja com maior precisão doutrinal, servindo de apoio à catequese, à preparação sacramental e a estudos acadêmicos. Os participantes também apontaram esses modelos como uma alternativa a plataformas comerciais cujos critérios de funcionamento são considerados pouco transparentes.
Ao mesmo tempo, formadores ressaltaram que a inteligência artificial deve ser utilizada como ferramenta de apoio, e não como autoridade absoluta. Montse Alvarado, prefeita de comunicação, afirmou que a mensagem cristã não é criada pela inteligência artificial, mas comunicada por meio dela.
Outro tema discutido foi o uso dessas tecnologias em escolas católicas e seminários. A orientação apresentada é que os sistemas não atuem de forma autônoma em salas de aula, devendo ser acompanhados por professores e formadores.
Responsáveis pela formação sacerdotal relataram que os seminaristas já chegam às instituições familiarizados com tecnologia e redes sociais. Por isso, a proposta é integrar a inteligência artificial ao currículo e ensiná-los a utilizá-la de forma abrangente, tanto em estudos bíblicos e teológicos quanto no discernimento pastoral. Os participantes ressaltaram, contudo, que a consulta a um modelo de linguagem não deve ser confundida com direção espiritual ou oração.
Para educadores, as ferramentas podem ajudar a personalizar exercícios, revisar conteúdos e oferecer materiais complementares. O uso, porém, dependeria do respeito à filosofia cristã e às normas de proteção de dados discutidas no fórum.
Ao longo dos dois dias de debates, líderes católicos afirmaram que o entusiasmo com a tecnologia não deve ocultar seus limites em questões espirituais. Erich Kerekes, do aplicativo de oração Hallow, declarou que a oração é uma relação pessoal com Deus e não pode ser reproduzida pela tecnologia.
Essa perspectiva foi compartilhada por outros participantes, que descreveram a inteligência artificial como um instrumento capaz de organizar conteúdos, sugerir leituras e lembrar horários de oração, mas incapaz de substituir a liberdade humana, a convivência comunitária e a experiência religiosa.
Para o cardeal Michael Czerny, o avanço tecnológico deve fortalecer, e não enfraquecer, a interdependência social. A proposta defendida pelo Vaticano é aproximar engenheiros, pais, professores e líderes religiosos para definir, de forma conjunta, como essas ferramentas serão desenvolvidas e utilizadas.
As medidas debatidas em Roma, como testes independentes de segurança, proteção rigorosa de dados infantis e alinhamento explícito a valores religiosos, podem influenciar empresas que atuam nos setores digital católico e educacional. Especialistas avaliam que plataformas que não adotarem padrões semelhantes poderão enfrentar maior pressão no mercado.
Investidores presentes no fórum demonstraram interesse em financiar projetos que combinem viabilidade econômica e objetivos de evangelização, o que pode ampliar o segmento de tecnologias voltadas à religião. Juristas também consideraram que a defesa da responsabilização por danos causados a menores poderá contribuir para propostas de regulamentação específica do ambiente digital.
Entre os próximos passos estão a implementação das salvaguardas discutidas em Roma, a ampliação da formação de seminaristas e educadores para o uso responsável da inteligência artificial e a criação de grupos permanentes de trabalho entre o Vaticano, universidades católicas e centros de pesquisa. Os organizadores esperam que a iniciativa inspire outras tradições religiosas e fortaleça a participação da Igreja Católica no debate internacional sobre ética em inteligência artificial.
Fonte: Mirai Broadcast
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